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Dezembro, 2002
Passo Fundo, RS

Resultados e discussão

 

A disponibilidade hídrica é uma variável que limita a expressão do potencial de rendimento da cultura de soja no Rio Grande do Sul, independentemente do ciclo da cultivar, da época de semeadura e do local; conforme resultados previamente apresentados e discutidos por Cunha et al. (1998) e (1999), entre outros. Todavia, há variabilidade entre regiões, existindo aquelas em que as magnitudes da perda do potencial de rendimento, por falta de água à cultura, são maiores.

As diferenças regionais existentes no Rio Grande do Sul, em termos de impactos negativos do regime de chuva do período de primavera-verão sobre o rendimento da cultura de soja foram amplamente discutidas por Cunha et al. (2001). Para um mesmo nível de probabilidade, o comportamento é similar, independentemente do ciclo das cultivares. Há um gradiente indicando aumento na magnitude das perdas, no sentido de nordeste para sudoeste no estado, além de, na metade sul do estado, essas perdas serem sempre maiores. Observou-se isso confrontando-se as cidades de Vacaria e São Borja, no primeiro caso, e as cidades de Passo Fundo e Bagé, no segundo, por exemplo.

Um indicativo de que os problemas de deficiência hídrica em soja são maiores e mais freqüentes nas regiões central, sul e oeste do Rio Grande do Sul (mais precisamente nas regiões climáticas da Campanha, Litoral Sul, Baixo Vale do Uruguai, Depressão Central e Serra do Sudeste), foi apresentado por Bergamaschi (1986). Por sua vez, Mota et al. (1996) concluíram que em todas as regiões do RS há, climaticamente, necessidade de irrigação em soja, considerando o período de semeadura recomendado (outubro a dezembro) e as cultivares de todos os ciclos. Além disso, as necessidades de irrigação no sul do estado são maiores que as verificadas na região norte. Esse fato demonstra, conforme salientado por Matzenauer et al. (1998) e Berlato (1999), que a precipitação pluvial no RS, embora seja eqüitativamente distribuída nas quatro estações do ano (24% no verão, 25% no outono, 25% no inverno e 26% na primavera), a chuva normal de verão, em geral, não é suficiente para atender às necessidades hídricas das culturas, principalmente na metade sul do estado em função da maior demanda evaporativa da atmosfera no verão (dezembro, janeiro e fevereiro).

Na Figura 1, extraída de Cunha et al. (2001), por exemplo, para semeaduras de outubro a dezembro, ficaram evidentes as diferenças regionais dos impactos das deficiências hídricas na perda do potencial de rendimento em soja, com 80% de probabilidade. Verificou-se também, que a magnitude das perdas aumenta no sentido do sudoeste. As menores perdas concentram-se na parte nordeste e as maiores na metade sul do estado.

Comparando as colunas da Figura 1, isto é, cultivares de ciclo precoce x cultivares de ciclo médio x cultivares de ciclo semitardio/tardio, nota-se que há grande similaridade nas cartas de perda de potencial de rendimento entre as cultivares de ciclo precoce e as de ciclo médio, independentemente da época de semeadura considerada. Todavia, comparativamente às de ciclo semitardio/tardio, observa-se que há diferença, particularmente na metade sul do estado, apresentando estas menores perdas do potencial de rendimento, em relação às de ciclos precoce e médio. Isto é mais notório nas semeaduras do começo até meados de outubro e nas semeaduras a partir de meados de novembro. Na parte norte do estado, particularmente no nordeste, os resultados mostrados nas cartas são similares para os três ciclos de cultivares (precoce, médio e semitardio/tardio).

A principal zona de produção de soja no Rio Grande do Sul concentra-se nas regiões Planalto Médio e Missões, isto é, na metade norte do estado. Todavia, nessa área, as perdas aumentam de leste para oeste, ou seja, dos Campos de Cima da Serra, passando pelo Planalto Médio, até as Missões. Comparativamente com o Planalto Médio, há maiores perdas do potencial de rendimento nas Missões, sendo esta também uma importante região produtora de soja no estado.

Clima e solo são variáveis que explicam as diferenças regionais dos impactos de deficiência hídrica na cultura de soja no Rio Grande do Sul, particularmente, em função da capacidade de armazenamento de água disponível no solo e de regime pluvial. Em trabalho de análise sobre a probabilidade de a precipitação pluvial superar a evapotranspiração potencial, para culturas de primavera-verão no RS, Avila et al. (1996) traçaram uma série de cartas que demonstraram comportamento regional que explica os resultados obtidos no tocante à perda do potencial de rendimento em soja, pela falta de água. Nas regiões em que a magnitude de perda do potencial de rendimento foi maior, a probabilidade de a precipitação pluvial se equivaler à evapotranspiração potencial ou de superá-la foi menor.

Nas figuras 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10, são apresentadas as cartas de riscos climáticos para a cultura de soja no Rio Grande do Sul, com base no ISNA (ETr/ETm), conforme o ciclo das cultivares e a capacidade de água disponível no solo (CAD), para semeaduras entre outubro e dezembro, nos moldes do trabalho realizado por Farias et al. (2001) para outros oito estados brasileiros. Destacou-se a similaridade entre estes mapas de riscos climáticos e os de perda do potencial de rendimento (Figura 1). As regiões classificadas como desfavoráveis e/ou de risco intermediário praticamente se sobrepõem àquelas de maiores perdas do potencial de rendimento, concentradas na metade sul e na parte oeste do estado. Também ficou evidente, que, quanto menor a capacidade de água disponível no solo (CAD), maiores são os riscos para a cultura de soja. Tem-se, em ordem crescente de CAD, que as áreas de risco diminuem progressivamente dos solos Tipo 1 para os solos Tipo 2 e 3 (Tabela 2), independentemente de ciclo de cultivares.

Outro aspecto importante, que pôde ser constatado, é que, para os solos Tipo 1 (CAD de 35 mm), a área considerada favorável para cultivo de soja está concentrada na parte nordeste do Rio Grande do Sul (Planalto Médio, Campos de Cima da Serra e Serra do Nordeste). Esse fato deve-se à combinação de maiores valores de chuva e menores de evapotranspiração, em função do regime térmico mais frio, que se verifica nessa parte do estado. De qualquer forma, mesmo classificada como favorável para semeadura de soja, no caso das áreas com solo Tipo 1 (CAD de 35 mm), deve-se admitir que, comparativamente aos solos Tipo 2 (CAD de 50 mm) e solos Tipo 3 (CAD de 75 mm), nessas mesmas regiões, os riscos são maiores para os solos Tipo 1, pois os outros tipos de solo, em função de maior CAD, suportam períodos de estiagens mais prolongados via aporte de água armazenada no solo para a cultura.

A partir do mapeamento de perda de potencial de rendimento em soja no Rio Grande do Sul (Cunha & Haas, 1996; Cunha et al., 1998; Cunha et al., 1999), das cartas de riscos para semeadura de soja em função de deficiência hídrica e de tipo de solo e, particularmente, da re-análise de época de semeadura para soja, feita por Barni & Matzenauer (2000), considerando temperatura de solo e de ar, fotoperíodo e comportamento das atuais cultivares usadas pelos produtores (maiores estatura de planta e altura de inserção de legumes), ficou evidenciada a possibilidade de semeadura de soja no estado entre o começo de outubro e o fim de dezembro, embora maior rendimento seja alcançado com as semeaduras de novembro (Bonato et al., 1998).

Destaca-se que essa análise de risco para soja no Rio Grande do Sul foi baseada exclusivamente no critério de disponibilidade hídrica para a cultura (regime pluvial x capacidade de armazenamento de água no solo). Isso não implica que, necessariamente, todos os municípios do estado incluídos numa mesma zona de risco apresentem o mesmo nível de potencial de rendimento, em decorrência de diferenças associadas com outras variáveis de solo, clima e manejo. Tampouco que, naqueles municípios inseridos em áreas favoráveis (baixo risco) e considerando-se períodos de semeadura iguais, indistintamente do tipo de solo, os riscos sejam iguais, pois, conforme já discutido, os solos com maior CAD suportam, períodos mais prolongados de estiagem que aqueles que possuem menor capacidade de armazenamento de água.


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